quarta-feira, 12 de julho de 2017

Eflúvios


 Arte de Anastasia Vostrezova

Na plasticidade dos dias lentos,
exalta-me o viço da cor,
colírio de rosas brancas,
olhar líquido, abraço sedutor.

Que não fiquem secretos os pergaminhos,
testemunhos de humanos amores.
Dos primórdios chega-nos o rufo dos tambores,
soltando o ritmo, chamando a dança…
Vem de longe, a chama do abraço.

Na plasticidade dos dias escorreitos,
fervem-me líricos espasmos,
eflúvios de palavras fogosas
pluviosidade fora de tempo…
Quando em ti me cerras o peito.

OF (Odete Ferreira) - 24-05-17 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sã idade. Ou sanidade

Foto, Odete Ferreira
É sempre um sentimento de plenitude, quando aqui me sento; o rio pausado no descanso das margens largas, abertas ao acolhimento gracioso; a esplanada despretensiosa e despreconceituosa, cenário perfeito para qualquer enredo e personagem; o som alternativo, emergente de emoções que só este adentramento permite; a postura sorridente que capto e captura as palavras, libertando-as para, de imediato, as aprisionar no escrito, testemunha de uma possível definição de felicidade…
E todas as inquietações capitulam.
E todos os sorrisos são risos loucos.
E todos os rostos amados se endeusam.
E todas as almas que não retive em momentos como este, são o quase, o senão para a assunção da felicidade em estado sólido.
E humidifica-me o seu estado líquido, barrento, como tempestade castigadora.
Mesmo nestes momentos. De poesia. Imperfeita, em todo o caso…
(25-06-17)
Obra, Pawel Kuczynski

… e para os casos em que todas as vozes castradas de uma réstia de bom senso se atropelam nas tragicomédias destes tempos. Definitivamente, o acessório saltou para a ribalta. Porque os olhos (e os ouvidos) se tornam, cada vez mais, fúteis. E, assim sendo, o essencial é domínio dos raros. Que serão os novos loucos a precisar de instituir uma outra sanidade…
Odete Ferreira
(30-06-17) 

*as datas são relevantes no escrito 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

De profundis

De profundis

Queimam-nos as palavras, por estes dias.
Numa dor que arde para lá dos dedos.
Gritam os silêncios, lancinantes.
Sabemos, agora, do inferno.
E da imolação de almas inocentes.

Têm nome, os cemitérios negros.
E o luto será expiação permanente.
As coisas tiveram posse e raízes verdes.
Os lugares, o espírito das pessoas.
As pedras, quando purificadas pelas águas,
contarão do suplício humano
e do inferno sem redenção.

Por elas, saberemos da cegueira dos homens,
do choro seco e da palavra ardida.
Do tição que ainda há pouco fora vida…

OF (Odete Ferreira) - 21-06-17
Por opção, não quis o poema acompanhado de qualquer imagem

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Cântico


Há perfumes que viciam a perceção destes dias.
Que me cheiram a felicidade.
E o verso inebria-se de futuro.
As palavras, vestidas de outros cantos,
creem-se possuídas de um mandato novo.
Do povo. E eu sou povo.
E sorvo os cheiros puros.
O das flores rebeldes que não devem ser colhidas.
Nem tolhidas.
Nem as pedras devem ser mudadas,
dos lugares da sua história.
Os rostos avivam-se da cor do rio e do mar.
O verde dos limos.
O verde das algas.
E de cheiros:
Dos barcos.
Dos Lusíadas que foram náufragos.
Dos poetas que se prometeram.
De mim. Que te canto. Porque me encanto.
E me solto. Numa lusitanidade que me perfuma o peito.

OF (Odete Ferreira) - 07-06-17

Obra de Júlio Pomar, Camões

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Por aí... Entre afetos (e outros cuidados*)


Uma das nossas primeiras selfies... 5 meses, hoje!


Feira do Livro, Mirandela


Um colega, um amigo. Sucessos! Bem mereces!


Na mesa: António Almor Branco, Presidente da Câmara, Virgílio Tavares, autor, Odete Ferreira, coadjuvação na apresentação da obra


Uma espécie de regresso à escola... Da minha parte. :)
Parabéns a todos os meninos e meninas pela recetividade manifestada aos desafios lançados, ao longo da apresentação da obra. Parabéns, também, aos seus professores. Foi muito gratificante estar neste evento, coadjuvando o autor e amigo Vírgilio Tavares. Momentos a reter..


Coautora, cinco poemas.
 Amanhã, 16H, 3 de junho, em Bragança:
Apresentação da Coletânea de Poesia "40 Poetas Transmontanos de Hoje", Academia de Letras de Trás-os-Montes, inserida na Festival Literário, 3ª edição.


Aguardo, com muito interesse...

*(e outros cuidados)
O tempo é sempre escasso para cumprir com tudo o que gostaria, principalmente quando outros cuidados se me impõem. Foi o caso das últimas semanas: além da prestação de apoio a uma familiar, por motivo de saúde (já ultrapassado e bem) , afeta-me um problema de índole alérgico, nos olhos e pálpebras. Penso que caminha no bom sentido, agora que foi identificado e iniciado o tratamento. Nada, contudo, que afete a meu quotidiano. Apenas mais ausente do virtual. Obrigada a quem tem passado por aqui.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Havemos de ser peregrinos


Havemos de ser peregrinos
quando nada do que é palpável
nos suster as asas.
Faremos, então, caminho,
pelo íntimo desejo
de sermos a maciça pedra,
lisa e cheia, que aponta o voo.
Indiviso, polifónico,
como a palavra que escutamos
no indiscreto eco das falas
entre os montes ávidos e libertinos.
Que nos arrastam em ais subliminares
e, sibilinos, nos enviam os sinais.
E, sabemos, havemos de ser peregrinos.

Havemos de ser fumo, fogo e fósforo.
A luz que nos lateja nas têmporas,
a água que nos mata as sedes.

Havemos de ser o espaço e o tempo.
Num sobrevoo redondo.
A rasgar caminho.

OF (Odete Ferreira) - 10-05-17
Obra de Carlos Calvet

(Informo os amigo e amigas que respondi aos comentários deixados na anterior publicação "Perceções I")