sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Mulher-dor


Penduravas nas cordas a íntima roupa,
como oferenda a um deus redentor.
Ia-se o lamento na levada do sol. Uma benção!
Tal como os frutos dados ao sequeiro,
para mitigar as fomes do longo inverno;

o inverno que te caiava o rosto,
fazia tempo; o tempo que te ressecara o viço,
te revirgindara no preto da íntima pele.
Culpavas o fumo do lacrimejamento
que te inflamava os olhos verdes,
já apequenados e secos de gente.

E era fumeiro, em pleno verão;
do bulício do regato fizeste retratos imprecisos.
Que mastigas, chamando
a saliva que te desfaz o carolo de pão.
No teu rosto, mulher-dor, só vejo camas de espera.
Onde te deitas. Há muito, só!

Odete Costa Ferreira, 11-10-17

Obra Edvard Munch

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Por algum tempo


Chega-me o cansaço do vazio espaço.
Por algum tempo, o olhar ficará inquieto,
vagabundo do pátio, sem o abrigo da casa-jardim.
É a nostalgia dos gestos matinais
e do bom dia que o café não exalará,
no alpendre dos pensamentos veraneantes.

Suspira-me a alma, numa confidência muda,
a amarelecer as hastes do tempo verde.
Bem sei que é sinal da mudança da hora,
do fechamento do sol à intrepidez dos dias,
do recolhimento das horas largas de sol.

Por algum tempo, nada saberei do amor
jurado nos braços nus das esplanadas.
É o mistério a pulsar o passo que traço
e repasso em nova geometria,
inversa à nitidez das coisas,
um quase lusco-fusco da claridade.

É preciso ir para lá do jardim, passar o muro,
rebaixar a altura para apanhar o colorido
que se oferece numa profusão de tintos
que não sei manejar; sei, apenas, retirar a essência,
o pó que realçará as tuas maçãs do rosto, mãe.
Por algum tempo, será outono. Mas, em ti, não.

Odete Costa Ferreira, 27-09-17

Obra de Olga Blinder

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Fez-se história, em Mirandela!


Foto de Odete Costa Ferreira
(Momento em que se ouvia a nova presidente da Câmara, Júlia Rodrigues, pelas 23H, na Rua da República)

Houve Outro Caminho, em Mirandela! Mirandela acordou! E foi mais que vitória! Foi o 25 de abril autárquico! Que julgávamos impossível, num bastião do PSD. Que orgulho sinto das pessoas que ousaram abrir os olhos! Feliz, muito feliz! Houve lágrimas, abraços e sorrisos de orelha a orelha. Houve pessoas que se fizeram ao caminho, com a roupa que traziam por casa, do Porto a Mirandela, para abraçar a candidatura do PS  "Há outro Caminho" e fazer a festa. É também nestas pessoas (ainda jovens) que têm de estar longe da terra, mas que a têm no coração, que acredito serão  FUTURO! Não sei se vou conseguir dormir... Muita emoção, um arrepio de pele, um sentimento novo, um alvoroço de adolescente a evocar o primeiro de maio de 1974.
E um desejo de, daqui a umas horas, olhar o meu rio e dizer-lhe "Afinal, o teu povo soube ver que havia "Outro Caminho".
Obrigada, gente de Mirandela!
Parabéns, Júlia Rodrigues! Parabéns a todos e todas que fazem parte da candidatura! Parabéns a todos e a todas que deram corpo a este projeto pelo empenho e trabalho!
Parabéns Mirandela e concelho!

Odete Costa Ferreira, um registo escrito diretamente no blogue, sem grande preocupação linguística., isto é, ao correr da emoção... 

sábado, 23 de setembro de 2017

Ainda é cedo

Ainda é cedo.
A explosão de cores anuncia-se
num perfume cálido, com sabor a memórias.
Sem rasgo emotivo, numa ponderação avisada,
contraponto à asnice da pressa.
Ainda mal se anuncia a aurora,
já descerra a lápide da noite.
Que tem o seu encanto, de sonhos límbicos
a maturar perenes eflúvios;
os que ficam, no corpo aberto à floração das rosas.

Mas, ainda é cedo!
Soboreie-se, em íntima cópula,
o mosto, a compota rubra,
a delícia de beijos suaves.
E as palavras felinas que esbatem a nitidez dos sons.
Colha-se, em íntimo verso,
o canto vindimadeiro, a espuma das ondas,
a preguiça quente, o rubor do corpo.
E o prazer do poema soprado na brisa do entardecer.
Não tarda o equinócio de setembro,
mês medianeiro ou mensageiro.
De graças ou desgraças, sempre acontecendo
muito cedo, sempre fora do tempo…

Cerremos, pois, os olhos, amor.
E deixemos os lábios soltos para a renovação de promessas.

Odete Costa Ferreira, 18-09-17

Obra de Charles Courtney Curran

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Covinhas

Vem mansa a hora da brisa,

distendendo o sopro no alisamento do rosto.
O sorriso adivinha-se nas covinhas,
relicário de todos os mistérios do ser.
Só ela tem a chave mas são os outros
que se tentam no desvendar dos enigmas.
E ela deixa, de vez em quando,
uma pétala para chegar ao jardim.
Ou uma mãozinha curiosa
a bordejar as côncovas linhas.
Adejantes com este namoro,
abrem-se e fecham-se,
aparelhando-se com o olhar de espantos.
E, de repente, já não há rosto,
nem covinhas, nem linhas.
Apenas um girassol a abrir-se, a tomar todo o jardim.
Onde as vontades são momentos de verdade.

Odete Costa Ferreira, 23-08-17
Foto: Odete Costa Ferreira

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Tempo que fica



Passeio os dias pela macieza do afeto,
num apetite voraz de sabor
a tempo que fica.
Como comensal na mesa de iguarias irrepetíveis.
Humanos risos, humanas mãos
que se tocam no burburinho dos talheres.
Que conversam. Entre-os-dentes.
Demorando-se na boca, na degustação das palavras.
Estaladiças, fogosas, vermelhas de paixão.
Num desnudamento vestido de cores.
De frutos. De mim. E de céu.
Que se compraz no desenho de olhos
em dedos ávidos de fugas.
Para dentro das raízes que somos.
Que se veem. Nas têmporas já maduras.
E nas histórias cheias de enredos.

(Odete Costa Ferreira) - 24-08-17
Obra de Josefa de Óbidos
(Passarei a incluir o apelido Costa nas minhas publicações)