segunda-feira, 22 de maio de 2017

Havemos de ser peregrinos


Havemos de ser peregrinos
quando nada do que é palpável
nos suster as asas.
Faremos, então, caminho,
pelo íntimo desejo
de sermos a maciça pedra,
lisa e cheia, que aponta o voo.
Indiviso, polifónico,
como a palavra que escutamos
no indiscreto eco das falas
entre os montes ávidos e libertinos.
Que nos arrastam em ais subliminares
e, sibilinos, nos enviam os sinais.
E, sabemos, havemos de ser peregrinos.

Havemos de ser fumo, fogo e fósforo.
A luz que nos lateja nas têmporas,
a água que nos mata as sedes.

Havemos de ser o espaço e o tempo.
Num sobrevoo redondo.
A rasgar caminho.

OF (Odete Ferreira) - 10-05-17
Obra de Carlos Calvet

(Informo os amigo e amigas que respondi aos comentários deixados na anterior publicação "Perceções I")

domingo, 14 de maio de 2017

Perceções I



Ontem, na espontaneidade que os arroubos (e a urgência de dizer, como me disse, há uns anos, um amigo das lides poéticas) me arrancam, escrevi na rede social FB: Definitivamente, Portugal está nos olhos, nos ouvidos e nas bocas do mundo, na sequência das emoções diretas que os últimos eventos (visita do Papa Francisco e presença do Salvador Sobral no festival da eurovisão 2017) me suscitaram e no momento em que, quase em cadência, os júris nacionais (18, disseram no final) atribuíam o máximo de pontuação à canção portuguesa, sempre cantada em português, resistindo (os irmãos Sobral) ao mainstream, fazendo emergir o olhar de dentro, o sentimento, a alma.
E isto, para mim, é a manifestação do sagrado que existe no Homem. E a minha crença que este Homem nu prevalecerá quando os abismos estiverem prestes a chegar a um ponto do não retorno. Ou quando muitas das narrativas que se desenrolam, por esse mundo fora, em cordas bambas, pareçam previamente condenadas a uma atração fatal.
Depois, a mensagem da “Mensagem” de Fernando Pessoa, baila-me por entre as minhas perceções. E o último verso do poema “Infante” (Senhor, falta cumprir-se Portugal), soa-me no peito como alerta, como uma convocação permanente. Individual e coletivamente. Ontem, senti ambas. Ontem, Portugal cumpriu-se.

Odete Ferreira, 14-05-17
Foto retirada do google
(Deixei um comentário para os amigos e amigas que estiveram na última partilha)

domingo, 7 de maio de 2017

Amor, apenas...

Quando te olho 

E cada passo é de sol, 
adejante movimento
entre o tímido sopro
e o repentino vento
que te rasga a boca num sorriso
e me esboroa por dentro.

E cada gesto é de sol,
cativante coreografia
entre dedos de leveza
e pezinhos de firmeza
que me levam numa dança tonta
na sofreguidão do voo.

E cada sibilo é de sol,
eco do som em que leio palavras,
que me dizem, na mudez do amor,
ainda um morno lago de murmúrios,
num mar que me há de ser ser luz e espelho .

E todos os dia são de sol,
exercício de adivinhação,
leitura de linhas de expressão,
maias de emoção no meu peito.
E momices com sabor a canção.


OF (Odete Ferreira) – 03-05-17
O Ivo, 4 meses, num dos momentos de reação às momices da avó


Oro-te, mãe
 
Oro-te, mãe. Todos os dias. Diria mais. A cada momento em que, de mim, sou consciente. Da inconsciência não sei dizer, apenas da perceção. Sobre ela, sim, sei falar, ainda que toscamenre. Não tenho a arte da tosquia. Por isso, fica sempre a lã suficiente no meu corpo, de onde o cordão umbilical nunca se despegou e no qual se iniciou, se desenvolveu e perpetuou esta perceção de te ter sempre em mim. E sempre inteira! Com tudo o que me arrelia e com tudo o que me impele a ter-te em mim. E tudo é o todo que abarca a minha memória. Que, bem sabes, nunca se apresenta do mesmo modo. Como uma visita. Umas vezes, bate-nos à porta com um sorriso largo. Como se viesse dar as boas festas. Outras, com um ar circunspecto, sabendo, de antemão, que são esses os moments do amor pleno.
Hoje, nas rosas que colhi do jardim, vai o sentido maior deste dia: o da celebração de existência: a tua, a minha…E a do nosso menino que beijaste, emocionada (outra vez), há uma semana.
Oro-te, mãe minha. Sem prece previamente definida. Conforme o tamanho do momento.

Odete Ferreira, 07-05-17
Foto: Odete Ferreira (a mãe com 18 anos)

domingo, 30 de abril de 2017

Deste Abril necessário

Obra de Amália Soares

Quando a espera fizer anoitecer
os dias de olhares solares
e as noites de sonhos lunares;
e da clareza da dignidade
apenas restar o vulto da vergonha
e a dizimação do verde,
deverá um Abril, de pleno direito, ser invocado!

Enquanto num qualquer cais
jazer inerte um só mastro
e as amarras empedernidas
tiverem livres os corredores do poder,
enchendo silos com lágrimas de desespero,
deverá um Abril sulcar todos os mares,
levando o sal para o tempero certo.

E deste Abril necessário,
nascerão Maios em qualquer deserto.

E que no meu peito ressoe um cântico de cheiro novo.

OF (Odete Ferreira) – 26-04-17

 Escultura de Vhils no Palácio de S. Bento
Inaugurada no dia 25 de Abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

Onde estavas no 25 de abril? (Final)


O 1.º de maio de 1974 foi algo que nunca se apagará. Manifestações espontâneas. Mulheres de olhos brilhantes, como se de uma emancipação coletiva se tratasse.  Jovens irmanados num sentir e num vestir muito idêntico. A minissaia, as golas, as calças à boca de sino, são adereços exteriores que, além de marcarem uma época,  conferiam  condição identitária às massas. Os comícios, as sessões de esclarecimento, ingressar em partidos como o MRPP, a LUAR e outros foi um patamar obrigatório para uma juventude que vivia a utopia, que renascia, sentindo que havia uma missão a cumprir. Ler Mao Tsé Tung e afins em pleno café… Roubar, literalmente, maquinetas policopiadoras para os panfletos de propaganda e educação dos trabalhadores. Assaltar sedes, assistir à radicalização do discurso, ver o meu irmão ainda ser levado pela polícia e assistir ao amontoado de gente junto do Tribunal pedindo a libertação dos jovens… Um pouco de tudo isto vivi e de forma ativa. Armas nunca escondi em casa mas propaganda, sim. No meio da liberdade conquistada, a clandestinidade de ações como esta e outras, fizeram-nos mulheres e homens de fortes convicções. Os próprios conteúdos universitários passavam pelo contacto com autores até aí circunscritos a uma minoria. Lembro-me de ler Althusser, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde fiz algumas cadeiras de 1.º ano (e como tenho gratíssimas memórias desse tempo!). Até o namoro era revolucionário, pois, frequentemente, eram as cumplicidades nas ideias e ações que nos uniam. “Vemos, ouvimos e lemos” e eu acrescento, vivi intensamente um período que marcou indelevelmente a matriz do meu ser, do meu estar e, sobretudo, do meu pensar e agir. Nunca mais fui a mesma. Da luta mental passei a uma luta ativa. Fazendo, crescendo, cimentando, convencendo. Os Direitos do Homem ganharam aquele sentido já delineado na Revolução Francesa. E é ainda por eles que continuo a ser uma fiel filha do 25 de abril de 1974…

Odete Ferreira
Termina, nesta partilha, a divulgação do testemunho, publicado na Coletânea "25-04-1974", iniciado no dia 23 de abril.
Muito grata a todos os que o viveram comigo, estando presentes nas partilhas. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Onde estavas no 25 de abril? (3)

Na disciplina de história (uma das minhas preferidas) a quantas revoluções assisti pelas vozes de contadores de histórias, as minhas encantadoras professoras da disciplina! Ainda hoje me lembro da professora Cândida dizendo “Então o fulaninho…”. Eram histórias dentro da história. Uma delícia, esses relatos! Às batalhas, às guerras, às revoluções dava-lhes um condimento mágico, apesar da moldura de horrores que as precedia e se lhes seguia. Era passado, agora era presente. E havia uma revolução, caramba e eu iria assistir! No fundo, sentia um formigueiro de emoções…
Cada uma de nós lá ia conjecturando umas coisas mas nada de substancial que me marcasse a memória. Lembro-me de proferir um desabafo “Só não quero que haja fome”. Percebo bem esta verbalização. À época  a toda a conturbação social de que tivera conhecimento em contexto educativo, estava associada a fome (então a célebre frase de Maria Antonieta sobre a fome do povo “Qu´ils mangent de la brioche” era bem a súmula da repulsa que agitava já o meu ainda imberbe sentido de preocupação pelo outro, pelos sem voz, pelo desfavorecido da sorte..). Era também o que mais me marcava nos relatos dos avós: a racionalização, as senhas, as filas. E a literatura  do período realista estava bem presente. Consequentemente, todo este imaginário me levava a recear tal efeito.
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Preenchida a manhã nesta deambulação pela rua principal, o resto do dia passei-o por casa, seguindo avidamente as notícias que iam passando na rádio e acompanhando as imagens numa TV ainda a preto e branco. Fui montando o puzzle e, à medida que as peças se encaixavam, dava-me conta do enorme feito do momento verdadeiramente histórico que estava a viver. E, cá dentro, sentia um enamoramento irracional, uma paixão avassaladora por aquelas pessoas, aqueles lugares, aquela gente anónima que sorria ao mundo com pueril inocência. Tento que a minha memória de então não se deixe invadir pelo conhecimento atualizado dos documentários, relatos e séries a que assistimos de vez em quando, sobretudo sempre que se aproxima mais um aniversário da revolução. E ainda bem. Quem não viveu os acontecimentos, tem de perceber a grandeza levada a cabo por um punhado de gente que nos devolveu o principal legado incontornável: a liberdade! Para mim, o direito primordial da condição humana. Assim, foco-me na magia das imagens: um mar de gente anónima, o dito povo, nas ruas, audaciosamente proferindo a plenos pulmões as palavras “de ordem”, como passaram a ser designadas, como que libertando todos os gritos silenciados por anos de obscurantismo; os jovens empoleirados nas árvores, assistindo de camarote aos acontecimentos da rua do Carmo. Os cravos que adquiriram um estatuto maior ao serem símbolo de uma revolução sem armas. E era no meu Portugal, de uma pequenez geográfica, que se projetava ao mundo como referência… Percorre-me um arrepio emotivo, evocando estes momentos. Afinal havia heróis de carne e osso. Não os podia tocar, mas via-os e ouvia-os. Fazia parte do filme, não era apenas um elemento decorativo num cenário imaginário. Este era um cenário real, onde todos se sentiam atores principais. Com uma velocidade estonteante e uma avidez contagiante, também na minha cidade (então vila) se viveu intensamente o 25 de abril. Fui sabendo que, afinal, havia muita gente contra o regime; fui sabendo quem tinha sido molestado pela PIDE; fui sabendo de reuniões secretas; fui sabendo de tanta coisa. E aí, sim, o orgulho personificou-se. A minha terra, situada num Trás-os Montes, esquecido, tinha homens e mulheres pensantes. O avô Mário ainda chegou a ser interpelado pela polícia. Falava alto e de boca cheia. Estava catalogado, assim como tantos outros que sofriam na pele a dureza da terra e o silêncio dos inocentes.

Odete Ferreira (testemunho iniciado no dia 23)