segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sã idade. Ou sanidade

Foto, Odete Ferreira
É sempre um sentimento de plenitude, quando aqui me sento; o rio pausado no descanso das margens largas, abertas ao acolhimento gracioso; a esplanada despretensiosa e despreconceituosa, cenário perfeito para qualquer enredo e personagem; o som alternativo, emergente de emoções que só este adentramento permite; a postura sorridente que capto e captura as palavras, libertando-as para, de imediato, as aprisionar no escrito, testemunha de uma possível definição de felicidade…
E todas as inquietações capitulam.
E todos os sorrisos são risos loucos.
E todos os rostos amados se endeusam.
E todas as almas que não retive em momentos como este, são o quase, o senão para a assunção da felicidade em estado sólido.
E humidifica-me o seu estado líquido, barrento, como tempestade castigadora.
Mesmo nestes momentos. De poesia. Imperfeita, em todo o caso…
(25-06-17)
Obra, Pawel Kuczynski

… e para os casos em que todas as vozes castradas de uma réstia de bom senso se atropelam nas tragicomédias destes tempos. Definitivamente, o acessório saltou para a ribalta. Porque os olhos (e os ouvidos) se tornam, cada vez mais, fúteis. E, assim sendo, o essencial é domínio dos raros. Que serão os novos loucos a precisar de instituir uma outra sanidade…
Odete Ferreira
(30-06-17) 

*as datas são relevantes no escrito 

13 comentários:

  1. Há lugares assim, como os que falas na primeira parte do teu poema. Como se a paisagem agasalhasse a infância e a memória estivesse repleta de ternura.
    Dizes bem, quando continuas o poema que "o acessório saltou para a ribalta". E nós não vivemos para consentir frases inúteis em torno dos dias...Dois estados de espírito tão diferentes, Odete.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. É bom ter um local assim, onde o copo se encontra com a alma. Mas... e lá vem o inevitável mas, não podemos construir à nossa volta uma torre que nos isole de todo o sofrimento que vai pelo mundo e que de uma maneiro ou de outra sempre nos atinge.
    Abraço

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  3. Como te entendo! Que a lucidez nunca nos falte, Odete.

    Um beijinho :)

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  4. " E, assim sendo, o essencial é domínio dos raros. Que serão os novos loucos a precisar de instituir uma outra sanidade…"

    Forte tuas palavras, e tão verdadeiras... E tão contemporâneas! Encaixa no tempo, nas horas, em todos.
    Beijo, querida amiga.

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  5. Gostei muito da primeira fotografia que ilustra muito bem o texto e o rio quando corre calmo e tranquilo transmite-nos paz de espírito.
    Um abraço e boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  6. Minha querida, estamos em tempo de Kay Yuga, sem dúvida...

    Que esse teu refúgio te acolha sempre em paz e serenidade!

    Carinhoso abraço

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  7. Bonita fotografía a contraluz y es así como, a veces está el alma, volviéndole la espalda a la luz de las emociones. Un abrazo. Franziska

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  8. Sentimo-nos sempre bem na contemplação de uma vastidão de água...
    Afirmam que o facto se deve ao tempo em que fomos seres aquáticos, na matriz e na história da evolução...
    Que o teu amado Tua continue a relaxar-te e a encantar-te...

    Sejamos, então, os novos loucos...

    Os afetos são sempre profundamente essenciais.
    Beijinhos, num dia em relembro arte e beijos...
    ~~~~

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  9. olá, os loucos contribuíram de uma maneira ou de outra para a evolução do mundo, não se pode viver isolado, viver com lucidez, é necessária em todas as situações, que venha mais contribuição dos bons loucos.
    Feliz fim de semana,
    AG

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  10. O problema é que somos grandes consumidores do que é acessório (é quase como se déssemos às crianças apenas as comidas que elas preferem). Assim sendo, há uma indústria montada para o acessório e que é altamente rentável...
    Magnífico texto, gostei imenso.
    Odete, um bom fim de semana.
    Beijo

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  11. Odete , estou voltando ao espaço dos amigos depois de um mês de muito trabalho . Vir aqui é sempre ser presenteada com sua escrita que nos prende e emociona . Obrigada . Beijos e boa semana .

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  12. Querida Odete,

    Adorei o título; a sanidade acontece neste processo de
    sentir-ser sã em qualquer idade...rss
    Como tem saúde, luz e sentir contagiante a tua escrita, minha amiga:
    "E todos os risos são risos loucos"...
    A sanidade é a lucidez das escolhas para a expressividade de
    "uma loucura" por dentro que seja altiva em relação a
    "Todas as vozes castradas de uma réstia de bom senso"...
    Adorei estes teus dois registros poéticos, filosóficos
    e arte, arte sempre!
    Saudades e gosto muitoo de ocê! (como se diz na minha terrinha...rss).
    Semana luminosa para ti!
    Bjos.

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  13. Amiga

    Já andei por este post umas quantas vezes. Tantas que estava convencida de que já o tinha comentado. Mas não. O que fiz foi deter-me naquela varanda, olhando o rio, ouvindo palavras que me fizessem entrar na pele da autora. E, não foi difícil olhar à minha/nossa volta pelos seus olhos, porque ela nos transmite emoções enredando-nos na sua poesia de forma irremediável e gratificante.

    Detive-me nas datas, importantes, no caso, para a sua escrita. Escrutinei-as. Procurei adivinhar nelas algo que me fizessem transcender o momento, algo de muito grandioso ou o seu contrário. Consegui-o? Como numa paleta de cores cuja gradação ultrapassa a nossa imaginação percebi que só uma artista poderia traçar um quadro tão perfeito de modo a deixar-nos perceber as falhas com que somos brindados, a loucura dos nossos dias, a necessidade de palco para aqueles que conseguem banalizar as nossas tragédias.

    Obrigada, querida Odete.

    Bj

    Olinda

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